
Em meio ao aumento de eventos extremos, congestionamentos e pressão sobre serviços públicos, algumas prefeituras brasileiras passaram a divulgar, nos últimos anos, estudos, testes e aplicações iniciais de gêmeos digitais urbanos, clones virtuais alimentados por dados reais para simular enchentes, planejar mobilidade e monitorar infraestrutura. Um dos casos é o de Rio Verde-GO, que em 2026 lançou a plataforma Rio Verde 360°/Gêmeo Digital, voltada ao planejamento urbano e à governança digital.
A iniciativa Rio Verde 360°/Gêmeo Digital é um modelo virtual do município, alimentado por cartografia digital, imagens aéreas, sensores urbanos e bases de dados integradas. A ferramenta deve auxiliar a tomada de decisões sobre mobilidade, infraestrutura, iluminação pública, saneamento, uso do solo, áreas de risco e meio ambiente.
O gêmeo digital pressupõe algum grau de modelagem territorial, integração de dados e capacidade de simular cenários ou identificar padrões, comportamentos e eventos futuros. Embora nem toda iniciativa de cidade inteligente seja um gêmeo digital, projetos de conectividade, videomonitoramento, centro de dados e centros de operação integram a infraestrutura necessária para modelos urbanos de maior complexidade.
O avanço dessas ferramentas ocorre num país altamente urbanizado. Segundo o Censo Demográfico 2022, do IBGE, 87,41% da população brasileira vive em áreas urbanas, o equivalente a 177,5 milhões de pessoas. Nesse contexto, enchentes, calor extremo, trânsito, insegurança e demanda crescente por serviços desafiam diretamente a capacidade de planejamento dos municípios.
Tecnologias para a construção de cidades inteligentes podem melhorar o uso de recursos, reduzir desperdícios e aumentar a resiliência diante das mudanças climáticas. O gêmeo digital entra nesse contexto como um instrumento de coordenação entre dados, território e decisão pública.
Segurança pública e infraestrutura digital
Embora Rio Verde-GO seja apresentado como caso de gêmeo digital urbano, experiências municipais de infraestrutura digital ajudam a entender a base tecnológica necessária a esse tipo de sistema.
O Projeto de Pesquisa de Marcos Dias de Paula e Pedro H. Gonçalves, sobre cidades inteligentes e segurança pública no contexto do Desenvolvimento Regional, desenvolvida no PPGDR-FACE-UFG, analisa a criação do Centro de Inteligência Tecnológica (CIT) em Aparecida de Goiânia, a implantação de 720 km de fibra ótica, a estruturação de centro de dados próprio e a instalação de 3.275 câmeras em escolas, unidades de saúde e espaços urbanos.
A pesquisa buscou relacionar videomonitoramento, indicadores de violência criminalizada e indicadores de desenvolvimento humano. Empregando modelos econométricos e utilizando Anápolis-GO como grupo de controle, foi avaliado o efeito da política pública. Os resultados apontam evidências consistentes com redução do Índice de Violência Criminalizada (IVC) após a implantação do sistema de videomonitoramento. O estudo também demonstra que indicadores de desenvolvimento municipal, especialmente educação, saúde, emprego e renda exercem papel estrutural na explicação da dinâmica da violência.
Para Marcos Dias de Paula, que atua como coordenador de projetos de pesquisa e desenvolvimento da FIRJAN SENAI SESI, o caso de Aparecida de Goiânia-GO mostra potencial, mas exige cautela. "Sistemas de câmeras e centros de operação podem melhorar a resposta a ocorrências e proteger equipamentos públicos, desde que submetidos a regras claras de privacidade, armazenamento de imagens, acesso aos dados, auditoria e controle democrático", afirma o pesquisador.
No Brasil, qualquer expansão desse tipo de sistema precisa observar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), legislação brasileira comparável, em parte, a marcos internacionais de proteção de dados, como o General Data Protection Regulation (GDPR) europeu, especialmente quando envolve imagens, dados de localização, informações comportamentais ou sistemas automatizados de análise.
Clima, enchentes e o calor urbano
O executivo sênior Luiz Carlos Martins, gestor global de grandes projetos de engenharia, infraestrutura e operações de fusões e aquisições (M&A), defende que "para a adaptação climática, gêmeos digitais podem ajudar a identificar áreas sujeitas a enchentes, simular chuvas intensas e orientar obras de drenagem, contenção e defesa civil. Também podem apoiar o combate às ilhas de calor, analisando arborização, sombreamento, pavimentação, ventilação urbana e temperatura de superfície".
"Na mobilidade, a tecnologia pode ajudar a prever congestionamentos, ajustar semáforos, planejar ciclovias, reorganizar linhas de ônibus e avaliar mudanças viárias antes de sua implementação. Sensores, GPS de veículos, câmeras e dados de deslocamento alimentam modelos capazes de estimar fluxos e gargalos. Para cidades brasileiras, isso pode significar menos tempo perdido no trânsito, menor emissão de poluentes e melhor uso da infraestrutura existente", afirma o executivo.
Transparência, participação cidadã, riscos e o futuro
O engenheiro e advogado Arnaldo Feitosa, MSc pelo Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), relata que "os gêmeos digitais também podem ampliar a participação cidadã quando associados à transparência, prestação de contas e diálogo social. A população pode compreender melhor obras, mudanças no trânsito, riscos ambientais e prioridades de investimento. Para isso, as plataformas não podem ficar restritas a técnicos ou fornecedores. Sem inclusão digital e governança adequada, o risco é reforçar desigualdades e afastar a população das decisões".
Para o economista Diercio Ferreira, CEO da Techtalent Innovation, os desafios são grandes. "Projetos desse tipo exigem conectividade, interoperabilidade entre sistemas, equipes capacitadas, segurança cibernética, recursos para manutenção e coordenação entre secretarias. Considerando o direito constitucional à privacidade, também há riscos de vigilância excessiva, dependência de fornecedores, baixa transparência algorítmica e concentração de investimentos em áreas mais ricas da cidade. A tecnologia pode virar vitrine se não houver indicadores claros de impacto social, avaliação independente e compromisso com problemas reais da população", afirma.
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