Saúde Brasil
O homem que é biologicamente incapaz de sonhar: 'Meu cérebro é um computador com tela apagada'
Embora não possa sonhar ou imaginar como a maioria das pessoas, Acevedo se considera criativo e além de trabalhar como médico já apresentou podcasts
20/02/2024 08h06
Por: Redação Fonte: bbc
  • Juan Francisco Alonso
  • Role,BBC News Mundo

"Sonhar não custa nada".

Esta expressão popular soa para a maioria como uma verdade incontestável.

Afinal, quem nunca fechou os olhos deitado sobre o travesseiro, em sua mesa de trabalho ou no ônibus e se viu transportado, como num passe de mágica, para uma praia paradisíaca ou marcando um gol na Copa do Mundo ao lado de um ídolo?

Também acontece de se encontrar em situações assustadoras, estranhas ou até incompreensíveis.

Mas há uma porcentagem da população para a qual o mundo dos sonhos, entendido como aquele território em que a mente cria histórias com imagens, sons e até cheiros enquanto dormimos ou até mesmo acordados, é algo desconhecido. O motivo? Eles têm afantasia.

A mente cega

"A afantasia é a ausência de visão mental ou a incapacidade de visualizar". É assim que o neurologista britânico Adam Zeman define a condição, da qual apenas se começou a falar nas últimas duas décadas, em grande parte por causa das pesquisas dele sobre imagens mentais.

“Para a maioria de nós, de nos disserem 'mesa de cozinha' ou 'árvore de maçãs', seremos capazes de reproduzir em nosso cérebro imagens de ambas. Pessoas com afantasia, no entanto, não são incapazes de fazer isso”, acrescentou o professor da Universidade de Exeter (Reino Unido).

O médico venezuelano Guillermo Antonio Acevedo, que estudou na Universidade Central da Venezuela (UCV) e mora na Espanha desde 2013, pertence ao grupo ao qual o especialista se refere. A BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, conversou com ele para entender como é viver com afantasia.

“Meu cérebro é como um computador com o monitor desligado ou que só pode armazenar arquivos .txt (de texto) e não suporta arquivos .jpg, .png ou nenhuma de imagens”, ilustrou.

Foi por acaso que Acevedo descobriu que pertence aos 4% da população que, segundo especialistas, não consegue visualizar imagens mentais.

"Eu trabalhava em um hospital psiquiátrico e comecei a mergulhar mais em temas de neurologia e doenças mentais e me deparei com um artigo de 2005 de Zeman, que falava sobre a mente cega", contou por telefone, da cidade espanhola de San Sebastián, onde vive e trabalha há seis anos.

“Esse artigo descreve como as pessoas que têm afantasia pensam e conta que essas pessoas não conseguem imaginar coisas, ou seja, que não podem ver imagens na cabeça. E foi aí que eu disse a mim mesmo: mas será que as pessoas podem realmente fazer isso?", continuou ele.

"O meu choque foi que havia pessoas que diziam que podiam ver coisas na cabeça. Lembro-me de pensar que as alucinações existem de fato, que não são algo metafórico”, acrescentou.

Hoje com 35, Acevedo passou 31 anos de sua vida acreditando que quando as pessoas diziam ter sonhado não tinham visualizado o que estavam contando.

"Até eu descobrir que tinha afantasia, pensava que quando os desenhos animados colocavam a nuvenzinha nos personagens era para que pudéssemos entender a história", explicou ele.

Nem bom nem mau

O médico não só garantiu não sonhar quando dorme, como afirmou jamais lembrar de o ter feito. E também não entende como o resto das pessoas o faz.

"Não consigo visualizar objetos na minha cabeça como outras pessoas fazem", disse ele.

Em seguida, ele ofereceu um exemplo de como seu cérebro opera.

“Se alguém te disser para imaginar uma maçã, você certamente fechará os olhos e poderá visualizar a maçã, porque os neurônios do seu cérebro que têm a imagem de uma maçã guardada são ativados, mesmo que você não tenha a maçã na sua frente. Eu não posso fazer isso. Eu sei o que é uma maçã, conheço forma e cores, mas não posso vê-la graficamente quando não a tenho na minha frente", explicou.

"Agora eu entendo por que quando eu era criança e me pediam na escola para desenhar minha família tudo era muito esquemático, tipo boneco de palitinho, sem qualquer detalhe", acrescentou.

Alguém que não sonha pode ter pesadelos? "Bem, eu interpreto um sonho ruim como pesadelo; ou seja, um sono em que você não descansa e sente que dormiu mal, mas não me lembro de ter visto imagens que me assustaram", disse ele.

"Eu achava que não lembrava do que eu sonhava, mas agora sei que não tenho sonhos", concluiu ele.